segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Michell Hilton

Jan Bondeson elucida alguns dos maiores mistérios do século XIX

Com o apoio da ciência, o pesquisador Jan Bondeson elucida alguns dos maiores mistérios de identidade do século XIX.

Jan Bondeson

Nunca existiu uma criança alemã criada em uma masmorra, sem contato com seres humanos e alimentada a pão e água. Kaspar Hauser, o jovem selvagem celebrado no filme de Werner Herzog de 1974, realmente existiu no início do século XIX, mas inventou a própria história para conseguir dinheiro, conquistar a generosidade alheia e, quem sabe, alguma fama. Jan Bondeson, professor da faculdade de medicina da Universidade de Gales, na Grã-Bretanha, vasculhou bibliotecas e documentos históricos sobre o caso e, juntado a esses indícios os avanços da ciência moderna, descobriu que, por critérios hoje óbvios para a medicina, o garoto bem desenvolvido física e mentalmente jamais poderia ter um passado tão desolador.

Em seu livro Os Grandes Impostores, recém-lançado no Brasil, Bondeson narra casos como esse, fazendo uma análise minuciosa de episódios conhecidos como os maiores mistérios de identidade do século XIX. Como um narrador de livros de detetive, ele recolhe pistas, examina as relações e tenta desvendar seus enigmas.

“A ciência do século XIX era inútil para investigar esses casos. As modernas técnicas de DNA deram neles um golpe fatal”, diz Bondeson.

A maior parte dessas histórias não sobreviveu ao desenvolvimento científico e, principalmente, aos testes genéticos, acessíveis desde os anos 1990. Essa é a principal ferramenta para os casos de identidade duvidosa abordados no livro. Qualquer cabelo, pedaço de roupa ou carta secreta pode ser submetida à análise e ter sua veracidade comprovada. Príncipes sumidos ou filhos bastardos, hoje em dia, são facilmente desmascarados pela ciência.

“Para muita gente, um impostor é um vigarista do século XX. Não engolimos mais essas histórias com facilidade”, explica Bodenson, autor de outros 13 livros, dois quais apenas um, Galeria de Curiosidades Médicas, havia sido traduzido para o português, em 2000.

História romântica ... Nas páginas do livro, o reumatologista nascido na Suécia se concentra em uma época em que a medicina e a ciência como conhecemos ainda não estavam desenvolvidas. Exames de sangue, testes psicológicos ou material genético contido em cromossomos ou mitocôndrias não eram sequer ideias da ficção. Por isso, avaliar a autenticidade de documentos, confissões ou verificar se uma pessoa era mesmo quem dizia ser era uma árdua tarefa. O poder político europeu do período, que deixava de ser fundamentado em linhagens consanguíneas e era balançado por revoluções populares, tampouco ajudava a verificar a verdade dos episódios. Era comum surgirem herdeiros desaparecidos, monarcas imortais, casamentos secretos ou pessoas simples depois identificadas como nobres sumidos.

Além disso, o imaginário desse tempo ainda era impregnado por histórias míticas e o pensamento mágico fazia parte do cotidiano. Não havia a separação clara entre a história convencional, baseada em evidências, e sua versão romântica, feita por teóricos de conspirações ou intelectuais amadores. Ficção e fatos históricos reais se misturavam e ficavam à mercê do narrador.

“Muitas dessas lendas e mistérios históricos se incluem em um conjunto de lendas típicas, algumas das quais têm origens muito antigas. A lenda do herdeiro desaparecido, como a do francês Luís XVII, reflete a longa ausência de Ulisses e seu retorno como um pleiteante. A história do simplório misterioso que acaba se revelando um príncipe, caso do czar russo Nicolau I, remonta a histórias populares medievais”, explica Bodenson. “Eles têm muitos aspectos míticos e essa é uma das razões por que se tornaram tão famosas.”

Experiência médica ... O autor começou a se interessar no início dos anos 1990 pelas histórias de identidade duvidosas, comuns no século XIX. Paralelamente a seu trabalho como pesquisador na Universidade de Gales, começou a ler sobre pessoas que pleiteavam ser filhos de reis ou herdeiros de grandes fortunas. Percebeu que faltava reunir todos os fatos históricos relacionados a elas, as conclusões científicas e, principalmente, os resultados dos testes de DNA feitos com esses personagens.

Usando sua experiência médica – que vê os indícios das doenças, analisa suas causas e faz as relações para descobrir sua solução – resolveu ir atrás de documentos da Biblioteca Britânica, da Biblioteca Nacional da França e da Alemanha para pesquisar sobre esses personagens. Visitou as cidades e os museus locais para conhecer o ambiente e passado de cada uma das histórias. Levou dois anos para juntar todas as informações e reuni-las em livro. O resultado é uma apresentação de todos os indícios históricos e científicos e um exame preciso do que levou esses personagens a, até hoje, permanecerem no imaginário mundial.

O enigma de Kaspar Hauser

Kaspar Hauser

Famoso pelo filme de Werner Herzog, de 1974, Kaspar Hauser foi um garoto real, de 16 ou 17 anos, que apareceu em Nuremberg, na Alemanha, em 1828. Ele dizia que havia vivido até então em uma masmorra, não havia tido contato com humanos e era alimentado apenas de pão e água. O jovem tornou-se o centro as atenções da cidade e, em pouco tempo, surgiram rumores de que deveria ser o príncipe herdeiro da família real de Baden, no sudoeste da Alemanha, que havia sido roubado do berço em 1812. Kaspar Hauser viveu com alguns tutores, mas foi assassinado em 1833.

A bibliografia destinada a desvendar a real identidade Kaspar Hauser dispõe de pelo menos 400 livros e 2 000 artigos. Alguns são a favor da teoria do príncipe e outras, de que Hauser era um garoto pobre que foi abandonado na cidade e inventou a história da masmorra para despertar a generosidade alheia. A análise dos documentos históricos mostra que a história da masmorra é disparatada — o jovem teve um bom desenvolvimento físico e mental e tinha aprendizado ágil, algo que não poderia acontecer em uma prisão pequena e escura. Já desmentir sua procedência real é mais difícil. Em 1996, a revista alemã 'Der Spiegel' patrocinou um exame de DNA para comprovar a história. Uma mancha de sangue na roupa de Kaspar Hauser, guardada em um museu alemão, foi comparada à ao DNA da realeza de Baden: elas não têm relação. O mais provável, de acordo com os historiadores mais recentes, é que Kaspar Hauser fosse o filho ilegítimo de uma família respeitável, criado em alguma fazenda isolada e abandonado na cidade quando os parentes não queriam mais o manter. Contar uma história fantástica e comovente sobre como foi maltratado seria uma ótima estratégia para conseguir dinheiro, conquistar amigos e fama. “A história de Kaspar Hauser tem alguns temas característicos dos contos de fadas tradicionais: o príncipe aprisionado, o ingênuo com poderes extraordinários, o órfão à procura de suas verdadeiras origens. Na literatura e nas artes, Kaspar Hauser adquiriu vida própria”, escreve Bondeson em seu livro.

O príncipe herdeiro desaparecido

O príncipe herdeiro desaparecido

Em 1789, Luís XVII, com apenas 4 anos, era príncipe herdeiro da França. Na metade do ano, com a queda da Bastilha, toda a família real foi aprisionada e, quatro anos depois, Luís XVI e a rainha morreram na guilhotina. O pequeno Luís XVII e a irmã Maria Teresa permaneceram presos na Torre do Templo, no centro de Paris, e em 1795, as forças nacionais informaram que o garoto havia morrido, coberto de feridas e com uma tuberculose generalizada. Foi o estopim para que surgissem boatos de que havia acontecido uma troca de crianças — o herdeiro havia sido trocado por um jovem moribundo — ou que o verdadeiro Luís XVII não havia morrido, mas tinha sido resgatado para viver em liberdade. Nos anos seguintes, pelo menos 100 pretensos herdeiros surgiram. O mais famoso deles era Carl Wilheim Naundorff, que apareceu em Berlim, em 1809.

Diversas investigações foram feitas para descobrir se príncipe herdeiro realmente poderia ter sobrevivido — os filhos de Naundorff pleitearam por anos seu direito ao trono —, mas as mais importantes aconteceram nos anos 1990, quando pesquisadores holandeses compararam o DNA de Naundorff e da rainha Maria Antonieta e não encontraram relações entre eles; e em 1998, quando cientistas fizeram a análise genética do coração do pequeno Luís XVII, que havia sido guardado pelo médico que fez a autópsia, e o comparou ao de sua mãe. Dessa vez, a ciência comprovou que o dono do coração era descendente de Maria Antonieta. O único problema é que esse coração tem uma fantástica história — foi perdido e reencontrado diversas vezes em meio aos constantes motins que Paris enfrentou no século XIX — e pode ter sido trocado pelo de seu irmão mais velho, também teve o coração guardado, como era o costume francês. Os últimos estudos para solucionar o enigma tentam descobrir se houve uma troca não de crianças, mas de corações.

A princesa Anastácia

A princesa Anastácia

Em 1920, dois anos após o assassinato o último czar russo, Nicolau II, e de toda a sua família, uma mulher foi retirada de um canal, em Berlim. Ela dizia ser princesa Anastácia, filha do czar, que se fingiu de morta durante o fuzilamento e fugiu com a ajuda de um soldado. Diversos nobres russos, antigos soldados e até o médico do czar reconheceram a mulher como a princesa. A única da família ainda viva que não a reconheceu foi a grã-duquesa Olga, tia de Anastácia: declarou que a mulher era uma impostora. A suposta Anastácia passou a viver na Alemanha, com emigrados russos e alguns nobres. Após uma série de longos julgamentos sobre sua identidade, ela emigrou para os Estados Unidos, onde se casou e morreu em um hospital psiquiátrico, em 1984.

A solução para o mistério só veio em 1991, quando cientistas russos anunciaram que haviam encontrado os esqueletos do czar Nicolau II e de alguns membros de sua família. Faltavam apenas os ossos do filho e de uma das filhas do czar — que poderia ser Anastácia. No entanto, uma análise posterior do DNA da mulher que dizia ser Anastácia não combinava com o material genético da família real russa. A investigação de historiadores demonstra que ela era Anna Anderson, provavelmente uma operária polonesa. Em 2008, mais dois esqueletos foram identificados pelos russos como sendo da família real russa. A história de Anna Anderson foi abandonada pelos cientistas, mas se mantém forte entre as histórias populares russas e em filmes como a animação 'Anastácia', da Fox, de 1997.

O casamento secreto do rei George III

O casamento secreto do rei George III

Desde o final do século XVIII, corre pelo império britânico um rumor de que o rei George III (conhecido como o "Rei Louco", que governou a Grã-Bretanha entre 1769 e 1820) havia casado secretamente com uma bela plebeia chamada Hannah Lightfoot — e tido herdeiros. Isso teria acontecido em 1759, dois anos antes, portanto, de seu casamento oficial com a princesa Carlota, o que faria do rei George um bígamo e toda a monarquia britânica atual um grupo de usurpadores. De acordo com a lenda, George e a plebeia Hannah se conheceram em 1753 e o príncipe apaixonado, com apenas 15 anos, raptou a moça no dia em que ela se casou com outro. Tiveram filhos, mas George foi obrigado a abandonar a amante para se casar com Carlota e assumir o trono.

A história oficial mostra que Hannah Lightfoot realmente existiu: era filha de um sapateiro londrino. Todos os fatos da lenda batem com sua biografia, como idade, datas do casamento e morte. E há pelo menos uma carta de um membro da família real britânica afirmando que o rei George III teve uma bela concubina plebeia durante alguns anos e que existiu um filho dessa união. O casamento, no entanto, jamais foi provado. Por volta de 1820, existiam candidatos a filhos de Hannah e George III na Tasmânia, Austrália, África do Sul e Estados Unidos. No século XX, havia pelo menos 50 “famílias reais britânicas alternativas” espalhadas pelo mundo. Em 2002, um documentário do canal 'Discovery' fez testes de DNA em 14 pessoas pertencentes a famílias que se diziam descendentes de George III e Hannah Lightfoot — nenhuma relação foi encontrada.

O czar eremita

O czar eremita

Alexandre I, o czar russo celebrizado pelo escritor Tolstoi em seu livro 'Guerra e Paz' (1869), é conhecido como o líder que derrotou os invasores franceses em 1812 e 1813 e salvou a Rússia de Napoleão. No final de sua vida, tornou-se amargo, desiludido com a política, e morreu de infecção em 1825, em visita a uma região afastada da capital. Após a autópsia, seu corpo, embalsamado, viajou para São Petersburgo e recebeu as homenagens – mas relatos da época indicam que o corpo no caixão era muito diferente do czar. Dez anos mais tarde, um homem aparentando a idade que o czar teria se estivesse vivo, chamado Fiódor Kuzmich, surgiu em um vilarejo do país e, como aparentava ser um vagabundo, foi preso e enviado para trabalhos forçados na Sibéria. No entanto, educado, religioso, amável e profundo conhecedor da vida na corte e das guerras contra Napoleão, logo se tornou uma celebridade na prisão — e sua semelhança física com o czar falecido levou a rumores de que ele seria Alexandre I, que havia forjado sua morte para levar uma vida mística. Após a morte de Kuzmich, em 1864, os boatos se intensificaram e alguns historiadores e biógrafos do czar começaram a levar a sério a história.

A análise de DNA dos dois homens poderia solucionar o mistério. Os relatos históricos, porém, garantem que a sepultura de Alexandre I, em São Petesburgo, está vazia. Ela pode ter sido saqueada durante a Revolução Russa, em 1917, ou jamais ter contido o esqueleto do czar. Os pedidos para que o corpo seja exumado foram constantemente negados pelo ex-governo soviético e pelo governo russo — o mesmo que ocorre com os ossos contidos na sepultura de Kuzmich. O mistério continua sem solução.