07/04/2015

França abre arquivos referentes ao genocídio em Ruanda


País europeu é acusado de cumplicidade no massacre em Ruanda. Mais de 800 mil pessoas foram mortas no genocídio de 1994. 

França abre arquivos referentes ao genocídio em Ruanda

Documentos disponíveis incluem atas de reuniões secretas de defesa do governo francês.

A França tornou público os arquivos relacionados ao genocídio em Ruanda que matou mais de 800 mil pessoas em 1994. Os documentos liberados são referentes aos anos de 1990 a 1995 e podem ajudar a esclarecer a política francesa nesse período. O país é acusado por Kigali de ser cúmplice no massacre.

Segundo uma fonte ligada à Presidência francesa, a decisão de abrir os arquivos foi assinada nesta terça-feira (07/04). Os documentos incluem atas de reuniões secretas de defesa e ministeriais, além de arquivos de conselheiros do então presidente francês François Mitterrand relativos ao genocídio no país da África central.

''Milhares de crianças, mulheres e homens foram trucidados, e sacerdotes se mantiveram em silêncio'', disse o embaixador.

A documentação estará disponível para pesquisadores, historiadores e associações de familiares das vítimas. Para ter acesso ao material é necessário fazer um pedido para a ex-ministra Dominique Bertinotti, que tem a custódia dos arquivos de Mitterrand.

Mais de 800mil tutsis e hutus politicamente moderados foram mortos em uma ofensiva de três meses por extremistas hutus em 1994, enquanto o mundo em grande parte assistia o episódio de longe.

O presidente ruandês, Paul Kagame, acusa a França de cumplicidade nos massacres ao dar apoio governo extremista hutu, que desencadeou o genocídio. Embora Paris tenha reconhecido erros nas suas relações com Ruanda, o país rejeitou repetidamente as acusações de que treinou milícias para participar dos ataques de 1994.

Presidente ruandês disse que "ainda há assuntos que são tabu, como a participação-chave de potências ocidentais".

O presidente de Ruanda, Paul Kagame, criticou novamente nesta segunda-feira (07/04), de maneira velada, o envolvimento da França e de outros países no genocídio que há 20 anos arrasou com o país africano. O massacre resultou na morte estimada de 800 mil a 1 milhão de integrantes da etnia tútsi e também dos hutus considerados moderados.

Em resposta, Paris anulou a participação de um ministro nos atos oficiais e o embaixador da França foi excluído nesta segunda das cerimônias.

Kagame advertiu que "nenhum país é tão poderoso que possa mudar os fatos, mesmo quando pensa que é", em referência a Paris. "A passagem do tempo não deve obscurecer os fatos, diminuir a responsabilidade ou transformar as vítimas em vilões", disse em um discurso durante um ato oficial do aniversário da tragédia.

O presidente de Ruanda acusa a França e a Bélgica de terem desempenhado um papel direto na “preparação política do genocídio”. A França, aliada do governo hutu na época, sempre negou qualquer implicação no massacre, considerado um dos mais graves da história do século 20, apesar de apoiado militarmente os agressores.

Em entrevista a uma revista francesa, Kagame afirmou que "ainda há assuntos que são tabu, como a participação-chave de potências ocidentais nos acontecimentos da época”.
Hoje, em Kigali, o presidente disse que "o legado mais devastador do controle europeu em Ruanda foi a transformação das distinções sociais. Fomos classificados, de acordo com um marco inventado em outro lugar", lamentou. A diferenciação social entre os grupos hutu e tútsi durante a colonização belga está na origem do enfrentamento étnico que desembocou no massacre, principalmente de tútsis, durante 100 dias.

A Bélgica herdou o território de Ruanda como espólio da Primeira Guerra Mundial e fez estudos antropomórficos da população, medindo o tamanho do nariz, da testa e altura para classificar os habitantes da região de acordo com o tipo físico. As diferenças foram classificadas e depois exploradas como forma de controle.

A cerimônia em Kigali foi realizada na presença de familiares das vítimas de todo o país e representantes governamentais de vários países. Entre eles estava o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon; o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair; e o ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki.


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